O EVANGELHO DE SÃO TOMÉ ENSINA A OLHAR MELHOR

05/08/2013 21:45

O Momento de Luz, através da análise de trechos do Evangelho de Tomé nos convida a nos tornarmos artesãos da Arte de Enxergar.

O Evangelho de São Tomé consiste em um curto documento que faz parte da chamada Biblioteca de Nag Hammadí. Esta Biblioteca é um conjunto de textos gnósticos e cristãos dos primeiros tempos. Eles foram descobertos em 1945, e sua publicação só ocorreu no final dos anos 1970.

Geralmente ignorados pelas igrejas cristãs, os documentos ampliam de modo radical a visão convencional de Jesus e mostram novas facetas do seu ensinamento, que nem sempre se encaixam na imagem fixa construída por alguns setores do cristianismo.

Que fiquemos abertos a estes novos olhares.

 

 

O EVANGELHO DE SÃO TOMÉ ENSINA A OLHAR MELHOR

Carlos Cardoso Aveline

  

A sabedoria divina, tal como pode ser vivida nas primeiras décadas do século 21,  parece coincidir com a perspectiva de alguns trechos do Evangelho de São Tomé ― um curto documento que faz parte da chamada Biblioteca de Nag Hammadí.

Esta Biblioteca é um conjunto de textos gnósticos e cristãos dos primeiros tempos. Eles foram descobertos em 1945, e sua publicação só ocorreu no final dos anos 1970. Geralmente ignorados pelas igrejas cristãs, os documentos ampliam de modo radical a visão convencional de Jesus e mostram novas facetas do seu ensinamento, que nem sempre se encaixam na imagem fixa construída por alguns setores do cristianismo.

Embora tenha pontos em comum com os evangelhos mais conhecidos, o evangelho de São Tomé possui valor próprio e é um dos textos mais profundos de Nag Hammadí. Ele inicia dizendo: 

“Estes são os ensinamentos secretos do Jesus vivo...”.

Com belas afirmativas simbólicas, o documento é, no mínimo, interessante e inspirador. Ele dá uma certa prioridade à capacidade de enxergar corretamente e, nos fragmentos 5 e 6, Jesus afirma:

“Reconheçam o que está ao alcance da sua visão, e aquilo que está oculto para vocês se tornará claro. Porque não há nada oculto que não se tornará manifesto.”

E acrescenta: 

“Não digam mentiras, e não façam aquilo de que não gostam, porque todas as coisas são claras para a visão do céu.  Pois nada que está oculto deixará de tornar-se manifesto, e nada que está encoberto deixará de ser descoberto.” 

Esse trecho se relaciona com a prática da presença divina,  e é claramente pitagórico. Um aspecto primeiro e essencial do trabalho de busca da sabedoria divina é, sem dúvida, relacionado com a atenção e com a consciência de que nada há separado da consciência cósmica. A boa lei do Carma fotografa e registra tudo: nada se oculta dela. Saber disso é algo que aumenta o nosso sentido de responsabilidade a cada momento da vida.  Por outro lado, se aproveitarmos bem as possibilidades que hoje vemos ao nosso alcance, passaremos a ser capazes de ver outras tantas oportunidades, que hoje ainda não conseguimos enxergar. 

O parágrafo 34 do evangelho de São Tomé sugere, porém,  que é recomendável desenvolver atenção e luz própria para enxergarmos o caminho, porque:

“Se um cego conduz um cego, ambos cairão no buraco”.  

Nos primeiros estágios do caminho do autoconhecimento, a alma inexperiente anseia por fatos grandes e espetaculares, mas trata-se de uma ilusão. A luz está nas pequenas coisas. No parágrafo 20, um discípulo pergunta ao Mestre:

“Diga-nos como é o reino dos céus.”

E Jesus responde:

“É como um grão de mostarda. É a menor de todas as sementes. Mas quando cai em solo arado, ela produz uma grande planta e se torna um abrigo para as aves do céu.”

Uma das conclusões práticas a que se pode chegar refletindo sobre este trecho é que o renascimento da sabedoria no país e na civilização em que vivemos depende de pequenas iniciativas ― de  pequenas sementes lançadas em bom solo. Tudo que é criativo começa em pequena escala.   A chave que permite mudar a  realidade está em ver, e perceber, a identidade interna entre a semente e a árvore, entre o pequeno e o grande, a terra e o céu, o microcosmo e o macrocosmo, o agora e o amanhã. 

O parágrafo 32 usa a imagem da montanha como símbolo dos níveis superiores de consciência:

“Uma cidade que é construída sobre uma montanha alta e é fortificada não pode cair, nem pode ficar escondida.”

O parágrafo 48 desse evangelho destaca o potencial ilimitado da cooperação entre as pessoas, quando há uma merecida confiança recíproca: 

“Se dois fizerem a paz um com o outro nesta casa, eles dirão à montanha: ‘afaste-se’, e a montanha se afastará.”

O texto atribuído a Tomé aborda também a expectativa humana sobre uma nova era global de paz e união entre todos os povos.  No trecho 113, já na conclusão do documento, um discípulo pergunta:

“Quando é que o reino virá?”

E Jesus responde:

“Ele não virá porque as pessoas fiquem  esperando por ele. Não será uma questão de dizer 'aqui está ele'  ou 'lá está ele'. Em vez disso, o reino do pai está espalhado pela terra toda, e os homens não o vêem.”[1]

Este fragmento indica que a sabedoria, a paz e a fraternidade  já estão em todos nós, ainda que mais ou menos adormecidas.  Mas não só em nós: o “reino do pai”, a lei do equilíbrio, está também no mundo desde sempre.  Cabe a cada um despertar a atenção necessária para VER e PERCEBER com clareza a ação dessa Lei Eterna em sua vida cotidiana. Deste modo, poderá agir conscientemente de acordo com a lei do universo, e participar do lento despertar coletivo para a sabedoria. 

 
NOTA:
 
[1] “The Gospel of Thomas”, em “The Nag Hamadí Library”, Revised Edition, Complete in One Volume, James Robinson, General Editor, HarperSanFrancisco, 1990, 550 pp., ver pp. 124 a 138.

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