AMOR OU OBSESSÃO?

06/08/2012 09:10

 

Será que estamos preparados para responder a essa pergunta sobre nossas relações?

Está semana, Gregório convida-nos a refletir sobre as relações que vivenciamos. O que nos liga a pessoa a qual dizemos amar? Estamos fazendo bem aos nossos companheiros e a nós mesmos?

Como pano de fundo, a história de Gregório traz memorias de sua relação com um amigo, a história de amor do seu cuidador (já contada no Momentos de Luz) e um caso discutido em uma de suas aulas. Comparando as três histórias, lança-nos uma serie de questionamentos, convidando-nos a reflexão.

Deixo-os a refletir.

Andréa

 

 

AMOR OU OBSESSÃO?

 

Certo dia, eu estava a andar pelo jardim, a pensar na aula do dia anterior. Falou-se sobre obsessão. Nunca tinha ouvido comentários daquela ordem. Assustou-me deveras.

A parte mais difícil de compreender, ainda estou tentando, foi o momento exato, no qual o amor encarnado torna-se destruidor. Não fazia nenhum sentido para mim. Muitos foram os exemplos e só conseguia me lembrar do meu cuidador e de sua rosa vermelha (veja em: https://www.cacef.info/news/a%20percep%C3%A7%C3%A3o%20do%20amor/).  História que me fez acreditar no amor verdadeiro e em sua capacidade de ser eterno e edificante.

Uns dos exemplos da nossa aula contava a história de Lívia e Fernando (nomes fictícios). Achei por bem utilizá-los, uma vez que não os conheci e não pude solicitar autorização para contar o que se passou. Porém, os afirmo que os facilitadores do curso possuem tal autorização, que foi me repassada para que eu pudesse compartilhar a história com vocês. Mas que não me sinto a vontade de identificar seus nomes. Talvez por ter me lembrado de um fato ocorrido na época que ainda estava vivo, digo, encarnado.

O fato da minha última encarnação e relatado a seguir explica o motivo de optar por nomes fictícios.

Um amigo muito próximo, um dos poucos que possuía, confidenciou-me um segredo, um fato muito interessante e polêmico. Contar fatos deste nível de possibilidades para um escritor é um convite a uma bela história. Pois bem, passei dias me corroendo. Dormia, sonhava e acordava com o desenrolar do evento em minha mente. Quando não aguentava mais, numa certa manhã de domingo, não resisti. Papel e caneta na mão, pus-me a escrever. Parecia um parto. Somente terminei ao término da última palavra.

Como falei, era domingo, dia de missa. Deixei o manuscrito sobre a mesa e parti para minhas obrigações religiosas. Ao retornar, não o encontrei. Não me preocupei de imediato. “Devo ter deixado em outro lugar e não me lembro.” Pensei. Fui cuidar da vida e o esqueci. Nem o tinha lido. Pensei em fazê-lo e depois, o queimaria. Não desejava publicá-lo, nem mostrar ao meu amigo. Dei apenas vazão a minha criatividade, autorizando-a a liberta-se, pois a sua compressão dentro de mim, estava me fazendo muito mal.

Na segunda, acordei com os gritos de meu amigo. Não só os gritos, como os murros e pontapés que o mesmo dava na porta. Abri a porta, assustado, mal compreendia o que estava acontecendo. Quando a porta tornou-se pequena para que ele despejasse toda sua raiva e revolta, voou sobre mim e passei horas no chão, apanhando sem dó e sem piedade. Depois, caiu em prantos ao meu lado, no chão. Dei um pulo de sobressalto, utilizando do resquício de energia que possuía.

- Você enlouqueceu? Perguntei aos gritos. Neste momento pude sentir a dor que fluía do meu corpo. Era ardida, doída, com gosto de sangue na boca.

Ele nada disse. Estendendo as mãos, passou-me o diário do dia. A uma simples olhadela, desabei. Não podia ser! Como meu texto foi parar no periódico da cidade? Há alguns meses eu escrevia, aos domingos e depois, diariamente, para o novo periódico. Era sério. As matérias eram cuidadosamente escritas. Somente grandes artistas e escritores publicavam nele.

Morri. Neste dia senti-me morto. Na verdade por semanas e meses. Tentei explicar que não fazia ideia do que havia acontecido, porém, meu amigo não me perdoou e nem esqueceu. Mesmo depois que investiguei toda a história, esclarecendo, não só como o texto havia chegado à publicação pelas mãos do menino que me ajudava a organizar os papeis e levava os textos para publicação (um erro imperdoável de comunicação), como o desenrolar do fato e a sua solução.

 Publiquei desculpas, e com sua autorização, sua inocência perante as denuncias instauradas. O máximo que recebi foi um obrigado. Disse-me que não poderia jamais confiar novamente me mim, pois minha ânsia de escrever era maior que a consideração por um amigo.

 Como disse, anteriormente, passei dias, adoecido. Desanimado, não conseguia sair da cama. Até que o diretor do periódico veio me visitar. Trouxe um documento de autorização que deveria ser utilizado para a publicação de qualquer matéria.  – Assim estaremos resguardados. Incentivou-me a voltar a escrever. Desta vez diariamente.

Porém, as coisas não transcorreram tão facilmente. O que fazer para criticar o abuso do poder, a desigualdade, a intolerância. Então, decidi: eu usaria pseudônimos e nomes fictícios. Fui processado muitas vezes, xingado, difamado, mas nunca mais perdi um amigo. 

Eis que, por aqui, preciso ter mais cuidado. Uma vez que ética e moral são a base de toda a nossa estrutura. Explicações dadas, voltemos a nossa história.

Lívia e Fernando formavam um casal muito apaixonado. Conheceram-se na mocidade, no finalzinho da infância, num belo jardim que separava as residências. Não se largavam mais. Viviam um para o outro. Um dia, Lívia adoeceu e desencarnou, deixando Fernando sozinho e dessolado. Não conseguiu se reerguer. Casou-se, anos mais tarde, com uma linda jovem que queria ajudá-lo a superar tanta dor, porém não conseguia esquecer a doce menina que o havia conquistado e prometido estar com ele por toda a vida. No início, somente chorou, depois, entregou-se a bebida, com a pobre Laura, incansável, saindo a sua procura, resgatando-o do vício para o qual ele retornava no dia seguinte.

Até que um dia, ele também partiu. Degradado, sofrido, perambulava pelas zonas infelizes, se maldizendo e gritando por seu amor. Lívia, mais preparada, tentou ajudá-lo, sem êxito. Seu coração encheu-se de tristeza e foi se desequilibrando. Recolhida e encaminhada para o departamento de reencarnação. Concordou em reencarnar, retornando ao corpo físico anos depois.

Fernando permaneceu em sua dor, até que um dia, em desespero, pediu clemência. Acolhido, confortado, foi melhorando pouco a pouco, porém seu coração clamava por sua amada. Lívia, na flor da idade, coração aos pulos, a procura do amor, sentiu-se atraída por suas vibrações e o guiou até ela.

Devem estar ansiosos para perguntar por que foi permitida tal aproximação? Respondo-os, porque foi o mesmo questionamento que fiz ao conhecer o fato.  Apenas duas palavras: livre-arbítrio. Assunto que logo trarei a discussão.

Voltemos ao caso.

Vocês não podem imaginar o transtorno deste novo encontro. A jovem menina promissora perturbou-se de tal forma, que toda sua vida desandou.  Envolveu-se com quem não devia, reuniu encarnados e desencarnados, sofredores e destruidores de suas próprias vidas. Foi um caos. Do outro lado, um espírito, voltado para seu amor, sofria pela rejeição, pela perda, pelo ódio. Dois espíritos perdidos e adoecidos, unidos pelo amor que se transformou em obsessão.

Então, perguntei: Não perceberam que faziam mal um ao outro? Que amor é esse que machuca e destrói? Que não enxerga o outro e nem o sente? Que é egoísta e maltrata, pelo simples fato de querer possuir o outro? Será que o que eles sentiam era mesmo o amor?

Deixo-os a pensar, porque sei que muitos conhecem muitas histórias assim. Também as conhecia e percebi que amor é algo muito diferente. Como a história do meu cuidador, sua amada e a rosa vermelha.

Boa reflexão e até mais.

Gregório

02.08.12

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