SORRISO

23/08/2012 19:35

 

Sorriso, esse é o tema do nosso Momento de Luz de hoje.

No início, vão procurá-lo, sem encontrar o porquê de sua presença. Parecerá um mistério. Mas, acreditem, ele está lá. Não somente no final do texto, onde o encontrarão em posição de destaque.

Perceberão que esteve presente em todo o percurso. Presente nos lábios dos que amam e acolhem com amor. Na verdade, formaram-se bem antes, no peito, no pulsar do coração que se se expressou através dele.

Vão encontrá-lo ao lado de lágrimas brilhantes, outro produto desta pulsão. Estarão unidos, porque desejam o mesmo: expressar-se ao outro, com amorosidade.

Este é o convite de Gregório, nesta semana: apurar o olhar, enxergar sentindo e agir sorrindo.

A todos nós, sorrisos e lagrimas brilhantes.

Andréa

21.08.12

 

 

SORRISO

 

Pois bem, retorno a história da primeira hora (relembre em: https://www.cacef.info/news/pensamentos-t%C3%AAm-cor%2c-forma-e-cheiro-/ ) .

Lembram-se! Eu estava injuriado, julgando, sem ao menos questionar o que ocorria. No ímpeto da insensatez, saí julgando sem avaliar respeitosamente o que ocorria.

Fato que costumava ser frequente em minha existência. Ao primeiro sinal, cheio de mim, saía por aí a criticar ferozmente, sem cuidado ou zelo. No mundo em que vivi e no qual vivem agora é extremamente comum o desenlaçar das observações superficiais, inseguras, perversas e destruidoras. Eis que eu, como um bom membro da sociedade avaliadora e crítica da vida alheia, me concentrava no olhar apurado que tudo vê e sabe.

Que desatino. Como pode um olhar tão superficial ser apurado? Um olhar verdadeiramente apurado, compreende o porquê de certas condutas, falas e pensamentos. Acolhe o outro, em vez de lançar pedras. Auxilia, em vez de julgar e condenar, sem o mínimo critério.

Ah! Que idiota fui. Como me comportei como um garoto que acaba de sair das calças curtas e, ao se sentir homem, desfila com sua empáfia, lançando um olhar crítico que tudo sabe, que tudo pode e que o outro está a quilômetros de distância de você.

Eu é que, ainda, me encontrava a quilômetros de distância da moral e da ética. Resolvi esparramar minhas impressões sobre as duas distintas mulheres que conversavam, sem precisar ou permitir a minha intromissão.

Vejo, agora, que o tempo, amigo de todas as horas, quando bem aproveitado, recolhe de nós os desatinos, devolvendo a “sanidade” da coerência e do respeito ao outro como ser pensante, detector de desejos e sentimentos, ou seja, igual a mim, ao meu lado e não abaixo.

Não rastejando a implorar o meu reconhecimento e aprovação por quem é, e por quem tenta ser. No máximo, posso encontrar alguns, ainda, inseguros quanto a si mesmos, em busca de algo tão valioso que é o seu próprio ser. E ao me solicitar ajuda, questionando sobre sua caminhada, eu detector de todo o poder, ergo a mão apontando o dedo da misericórdia e o reduzo a aos meus conceitos e aspirações.

Quem me falou que sou o melhor? Aquele que pode assumir o lugar do todo poderoso e sair a erguer a voz a direcionar o irmão, o igual, solicitante de ajuda, ao caminho escolhido por mim. Como saber se este é o melhor direcionamento? Como saber se as minhas verdades são absolutas? Como compreender que o outro necessita, que sensibilizado, acata este caminho sem nada questionar? Dolorido, sofrido foge de si, do percurso que desejava e que estava prestes a alcançar, quando foi reconduzido por mim.

Foi assim que acordei naquela manhã. Abatido. Reflexivo. Envergonhado. Pois a chegada de meu cuidador, novamente, trouxe-me a realidade dura dos fatos. A realidade de que continuo infantil. Com o uso desta palavra, não desejo reduzir os primeiros passos da vida, que esperta e corajosa se joga à vida em busca do crescimento. Mas da infantilidade que se iguala ao primitivo do ser, que se encontra no início de seus degraus rumo ao crescimento almejado e esperado.

Neste sentido, o cuidador chegou cumprimentando as velhas amigas. Tratava-as com respeito e admiração. Eu, em minha eterna ignorância, desaprovei seu comportamento. Sabia que conhecia o teor das conversas. Como podia compactuar com aquilo? Insistia em meu julgamento.

Em um determinado momento, voltou-se para mim e disse:

- Gregório, lembra-se? Estas são Marta e Jaqueline, as duas irmãs que cuidaram de você quando aqui chegou. Estiveram ao seu lado por todo tempo que esteve internado em nosso hospital. Revezavam-se dia e noite para cuida-lo. Você, como sempre, era inquieto.

Leve sorriso lhe tomou.

- Debatia-se frequentemente. Eram estas quatro mãos que lhe afagavam a face, transmitiam-lhe energias salutares e o acolhiam em seus abraços.

Embalado por sua voz, voltei ao período de internação. Foram longos e dolorosos meses. Não conseguia me adaptar àquelas novas orientações e direcionamentos da vida.

Lembro-me das dores lacerantes, do incomodo, do medo. E no desespero dos dias, sentia-me protegido e acalmado por mãos que me embalavam e me levavam ao seio, como uma mãe a amamentar e ninar sua criança.

Este era o meu sentimento quando recebia, por estas mãos delicadas e amorosas, toques respeitosos e fortificantes que relaxavam meu ser, levando-me a um contexto novo, distinto do qual estava. Sentia-me a flutuar e logo, depois adormecia.

Reconheci, neste momento, os olhares que me prendiam a atenção, transportando-me para este novo mundo de paz e harmonia. Despertei a voz de Marta.

- Estávamos a discutir o caso de uma de nossas cuidadas, quando fomos agraciadas pelo encontro do nosso antigo pupilo. Hoje, foi nos contado sua história e estávamos a discutir qual seria o caminho mais indicado de abordá-la.

Senti meu corpo estremecer. Em meu coração, pude ouvir as doces palavras das duas cuidadoras, que falavam sempre o que eu precisava ouvir. Tomado pela vergonha, arrependimento, e gratidão despontei ao chão. Fui aparado pelas mãos amigas de sempre.

Chorando, em lágrimas tristes de dor, pedi perdão pelo ato vergonhoso do julgamento. Estas se misturavam às lágrimas brilhantes e iluminadas, que saiam ao mesmo tempo das palavras de agradecimento.

Acolhido, senti-me compreendido e perdoado. Levaram-me para meu canto sagrado. O lugar onde recebia minha inspiração, meus ensinamentos através da reflexão. O pequeno quarto arejado, pertencente ao complexo de quartos, onde os trabalhadores podiam regularizar o sono, pensar e crescer. Adormeci, acordando na manhã seguinte. Ao abrir os olhos lembrei-me do ocorrido e iniciei as reflexões do dia. Após a prece, tive coragem de levantar e segui a procurar meus cuidadores.

Encontrei-os a me esperar no mesmo lugar do dia anterior. Abraçaram-me e convidaram-me a sentar na linda e bem cuidada relva recheada de flores. Ia começar, quando fui interrompido por Marta.

- Vamos orar, agradecendo a Deus pelo lindo encontro de nossas almas e pelo aprendizado que este encontro proporcionou a cada um de nós.

E assim o fez. Após a edificante prece, direcionou um suave olhar para onde me encontrava, dando-me a palavra.

Comecei de onde havia parado, solicitando perdão e oferecendo meu agradecimento.  Depois, como não podia deixar de ser, questionei:

- Por que não me lembrei de vocês?

Marta respondeu:

- Ao ficar desperto e preparado para a orientação e o entendimento, foi transferido para o setor de Marcos. É comum que este período fique mais presente na memoria, pois o espírito já tem mais consciência do que está ocorrendo ao seu redor, diferente do primeiro período, onde o novo confunde e atordoa.

Jaqueline tomou a fala.

- Caro Gregório, não se perturbe tanto. Compreendemos a fase que está passando: o desejo de afirmar todas as coisas pelas quais agora acredita, de utilizar o conhecimento que já conquistou e a vontade de fazer diferente. É uma fase ansiosa, atribulada de informações e atitudes.

-Todos nós passamos por isso. O continuar do aprender e a prática do utilizar o que foi absorvido. Esta pressa de absorver a tudo e a se sentir diferente, mais capacitado e melhor do que já foi. E não esqueça que cada acontecimento é uma forma de aprendizado. Perdoe a si mesmo. Compreenda o momento que está passando. Reflita sobre o ocorrido e aprenda o ensinamento.

-Quanto a nós, tomou a palavra Marta, estamos tranquilos quanto a você, pois visualizamos o seu crescimento e sabemos que tem feito uso do que esta a conhecer. A você o nosso carinho, amor e estímulo.

- Agora precisamos retornar ao trabalho. Esperamos vê-lo com mais frequência. Gostamos muito de ouvi-lo palestrar. Possui grandes ideias e seu aprimoramento é indiscutível.

Após as despedidas deixaram-me com Marcos, o meu cuidador.

Sem conversas ou demoras, chamou-me ao trabalho. A reunião da equipe começaria a poucos minutos.

Sorrir é melhor que apedrejar. Quando algo que discorda acontecer, lance um sorriso amoroso e compreensivo sobre aquele que o cometeu, ou sobre si mesmo quando for o causador. Não um sorriso, sarcástico ou de aprovação do erro, mas um sorriso de compreensão, que abre portas para o dialogo e, quem sabe, para a oportunidade de direcionamento. Quando acolhido, quem errou se permite a aprender e a fazer diferente.

Deixo-os para logo voltar.

Aos meus muitos cuidadores, inclusive a vocês com os quais muito tenho refletido e aprendido, minhas lágrimas brilhantes de agradecimento.

Gregório

21.08.12

 

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