VIVÊNCIAS MEDIÚNICAS (104)

16/08/2012 07:15

 

Nos dias atuais encaramos, praticamente, uma guerra civil já instalada na Síria, o que nos fez, na Vivência Mediúnica de hoje, rememorar que foi na estrada para a cidade de Damasco, já bem conhecida e movimentada desde a antiguidade, que Saulo de Tarso teve seu encontro com o Mestre Jesus.

Um encontro e uma história que nos convida à reflexão dos conflitos internos e externos que travamos nas estradas, muitos deles fruto do nosso orgulho e egoísmo.

Desejamos, profundamente, que as curvas desta estrada resulte num despertar mais consciente para a nossa dimensão mais cristã.

Que a história de transformação deste ser nos inspire.

Muita paz

 

 

VIVÊNCIAS MEDIÚNICAS (104)

 

Com as noticias de mais um confronto devastador a se arrastar no Oriente Médio, praticamente uma guerra civil já instalada na Síria, retorno no tempo hoje, ao rememorar que foi na estrada para a cidade de Damasco, já bem conhecida e movimentada desde a antiguidade, que Saulo de Tarso teve seu encontro com o Mestre Jesus.

No livro “Paulo e Estevão”, de autoria espiritual de Emmanuel, psicografia de Francisco C. Xavier, observamos a rica história de transformação, luta, perdão e superação de Saulo e Jesiel, respectivamente Paulo e Estevão, nomes adotados após suas conversões religiosas.

Neste livro, são descritos conflitos ainda hoje muito atuais, da luta pela sobrevivência digna em meio a sistemas político-sociais de dominação e exploração de muitos em favor de poucos, da corrupção e fraquezas humanas, do medo, da exclusão e do preconceito. Sabemos que muitos males da humanidade advém do egoísmo e da ignorância, que ainda não foram erradicados do orbe, portanto muitos representantes espelham esse nível evolutivo arcaico.

Contudo, também nos revela toda a força de um novo Ideal baseado em valores éticos mais nobres, no caráter, na tolerância, na caridade, na virtude e na inclusão. Foram os novos valores que impulsionaram ao transformismo evolutivo tão bem descrito por Emmanuel.

O embate entre as antigas leis e o Evangelho de Jesus, que liberta as almas do egoísmo, ainda é travado no planeta. Vou mais longe ao dizer que, em muitas ocasiões, dentro de mim mesma travo batalhas éticas na consciência.

Ao nos colocar como “todos irmãos”, o Mestre estende a ponte da humanidade, encurta fronteiras e barreiras, e sem excluir características individuais nos propõe uma nova forma de respeito ao outro.  Não há privilegiados, todos são escolhidos, toda a orbe planetária é governada pelo Mestre do Amor, mas teremos que, por nossa vez, fazer a nossa parte.

 

A aceitação do Evangelho de Jesus, com todo um novo código de moral e ética embutidos, com um novo paradigma de justiça, foi muito mais rápida para Estevão. Este nobre e elevado Espírito perdoou o seu perseguidor implacável, com a fé viva dos verdadeiros sábios, conhecedores da sua imortalidade, da transitoriedade carnal. Fico ainda instigada com este ser, que teve uma jornada encarnatória tão curta e trágica, e ao mesmo tempo tão rica e luminosa!

 

No Cap.VII, do livro observamos a reação de Saulo, o ego infantilizado, com a vaidade ferida e sensação de perda de poder e a antiga lei de talião:

“Em Saulo observamos a resistência ativa, com embates externos e perseguições ao novo Ideal. Saulo de Tarso, nas características de sua impulsi­vidade, deixou-se empolgar pela idéia de vingança, im­pressionado com o desassombro de Estevão em face da sua autoridade e da sua fama. A seu ver, o pregador do Evangelho infligira-lhe humilhações públicas, que impunham reparações equivalentes.”

“Esta gente do “Caminho” está sempre cheia de raciocínios absur­dos. É preciso não perder tempo com a cegueira da ignorância. Vamos até lá dentro, prendamos os chefes. Os sequazes do carpinteiro hão de ser perseguidos até ao fim.”

 

Esse homem velho tinha enraizado conceitos morais ao longo dos anos e seus atos arraigados às mesmas, aparentemente não eram contraditórios. Mas as Leis Maiores estão incutidas na Consciência, e acabam por emergir. Do conflito com o outro, Saulo passará ao debate interno, e a “crise de consciência” precede à “crise de emergência espiritual”.

 

No capítulo IX, o vazio existencial vai se delineando com um remorso quase indisfarçável:

“De vez em quando, sentia-se premido por uma saudade singular. Experimentava imensa falta da ternura de Abigail, cuja lembrança nunca mais se lhe havia apar­tado da alma enrijecida e ansiosa. Entre angústias extremas, recordava a agonia de Estevão, sua invejável paz de consciência, as palavras de amor e de perdão; em seguida, via a noiva genuflexa, implorando-lhe amparo com um clarão de generosidade nos olhos súplices. Jamais esqueceria aquela prece angustiada e comovedora, que ela fizera ao abraçar o irmão nos der­radeiros instantes de vida.

Não obstante a perseguição cruel que o transformara em mola-central de todas as atividades contra a igreja humilde do “Caminho”, Saulo sentia que as necessidades espirituais se multiplicavam no espírito sedento de consolação.”

 

No capítulo X,  a crise tem sua culminância ao propor questões mais profundas em relação a sua existência e ao sentido da sua própria vida:

“ De posse das cartas de habilitação para agir con­venientemente, em cooperação com as Sinagogas de Damasco, aceitou a companhia de três varões respeitáveis, que se ofereceram a acompanhá-lo na qualidade de ser­vidores muito amigos. Ao fim de três dias, a pequena caravana se deslocou de Jerusalém para a extensa planície da Síria.

Na véspera da chegada, quase a termo da viagem difícil e penosa, o moço tarsense sentia agravarem-se as recordações amargas que lhe assomavam constantes. Forças secretas impunham-lhe profundas interrogações.

Passava em revista os primeiros sonhos da juventude.

Sua alma desdobrava-se em perguntas atrozes. Desde a adolescência que encarecia a paz interior: tinha sede de estabilidade para realizar a sua carreira.

Onde en­contrar aquela serenidade, que, tão cedo, fora objeto das suas cogitações mais íntimas?

Os mestres de Israel preconizavam, para isso, a observância integral da Lei. Mais que tudo, havia ele guardado os seus princípios

A verdade dolorosa é que se encontrava sem paz interior, não obstante a conquista e gozo de todas as prerrogativas e privilégios, entre os vultos mais destacados da sua raça..”

 

Na sua vida rica em encontros e desencontros, há este encontro particular com o Mestre Jesus, na estrada para a mesma Damasco de hoje. E Saulo, que falou dos “cegos da ignorância”, ficou destituído temporariamente da visão física na sua jornada de despertamento interior.

Ressalto que muitos que encontraram e até mesmo conviveram com Jesus de Nazaré não o aceitaram.

 

Segue mais um pequeno trecho do livro, ainda neste capítulo o “encontro”:

“ Em dado instante, todavia, quando mal despertara das angustiosas cogitações, sente-se envolvido por luzes diferentes da tonalidade solar. Tem a impressão de que o ar se fende como uma cortina, sob pressão invisível e poderosa. Intimamente, considera-se presa de inesperada vertigem após o esforço mental, persistente e doloroso.

Quer voltar-se, pedir o socorro dos companheiros, mas não os vê, apesar da possibilidade de suplicar o auxílio.—Jacob!... Demétrio!... Socorram-me!... — gri­ta desesperadamente.

Mas a confusão dos sentidos lhe tira a noção de equilíbrio e tomba do animal, ao desamparo, sobre a areia ardente. A visão, no entanto, parece dilatar-se ao infinito.

Outra luz lhe banha os olhos deslumbrados, e no caminho, que a atmosfera rasgada lhe desvenda, vê surgir a figura de um homem de majestática beleza, dando-lhe a im­pressão de que descia do céu ao seu encontro.

Sua túnica era feita de pontos luminosos, os cabelos tocavam nos ombros, à nazarena, os olhos magnéticos, imanados de simpatia e de amor, iluminando a fisionomia grave e terna, onde pairava uma divina tristeza.

O     doutor de Tarso contemplava-o com espanto pro­fundo, e foi quando, numa inflexão de voz inesquecível, o desconhecido se fez ouvir: -Saulo!... Saulo!... por que me persegues?

- Quem sois vós, Senhor?

Aureolado de uma luz balsâmica e num tom de in­concebível doçura, o Senhor respondeu: -Eu sou Jesus!...

Então, viu-se o orgulhoso e inflexível doutor da Lei curvar-se para o solo, em pranto convulsivo.

Foi quando notou que Jesus se aproximava e, contem­plando-o carinhosamente, o Mestre tocou-lhe os ombros com ternura, dizendo com inflexão paternal:-Não recalcitres contra os aguilhões!...

Saulo compreendeu. Desde o primeiro encontro com Estevão, forças profundas o compeliam a cada momento, e em qualquer parte, à meditação dos novos ensinamen­tos.

O Cristo chamara-o por todos os meios e de todos os modos.

Banhado em pranto, como nunca lhe acontecera na vida, fez, ali mesmo, sob o olhar assom­brado dos companheiros e ao calor escaldante do meio-dia, a sua primeira profissão de fé.

Senhor, que quereis que eu faça?”

 

Da reforma íntima, do crescimento e da responsabilidade vem o Paulo de Tarso que conhecemos hoje, das formosas e famosas cartas aos Coríntios.

 

Encontrando a revelação maior, em face do amor que Jesus lhe demonstrava, solícito, Saulo de Tarso não escolhe tarefas para servi-lo, na renovação de seus esforços de homem.

Entregando-se-lhe de alma e corpo, como se fora ínfimo servo, interroga com humildade o que desejava o Mestre da sua cooperação.

Foi aí que Jesus, contemplando-o mais amorosa­mente e dando-lhe a entender a necessidade de os homens se harmonizarem no trabalho comum da edificação de todos, no amor universal, em seu nome, esclareceu gene­rosamente:

-Levanta-te, Saulo! Entra na cidade e lá te será dito o que te convém fazer!..”

 

Encerro hoje desejando que desse conflito na grande Damasco do oriente, e até mesmo nos conflitos internos e externos que travamos nas estradas, por vezes tortuosas, da vida, resulte num despertar mais consciente para o Evangelho do Mestre Jesus. E que esta história nos inspire com a mesma disposição para servi-Lo.

 

Muita PAZ para todos nós.

15-08-2012.

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